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Depois do jornal, agora os blogs morreram!!!

sábado, 25 de outubro de 2008 por Rafael Bucco

Paul Boutin, blogueiro do Valleywag, publicou na Wired um artigo que defende: a era dos blogs acabou. Se você planeja fazer um, ou tem o seu, esqueça, feche-o. Pra ele, Twitter, Facebook e até o Flickr são canais noticiosos mais expressivos e serão ainda maiores no futuro. Claro, ao escrever isso, pipocaram reações mundo afora.

Até a Fast Company se manifestou e divulgou um texto comentando a pressa de Boutin em declarar o fim de mais alguma coisa digital. Veja os principais argumentos do assassino e dos defensores dos blogs (sou um desses).

Para Boutin, blogs já eram por que:

  • Perderam espontaneidade. Os principais blogs são feitos por profissionais.
  • Campanhas de marketing inundam os blogs com informação desinteressante
  • Graças ao volume de blogs que surge todo dia, é quase impossível para uma voz interessante se destacar
  • Idiotas deixam comentários mal educados e desrespeitosos, matando qualquer discussão relevante

Para quem acredita nos blogs (Fast Company e mais gente aqui ):

  • Blogs permitem se aprofundar em um assunto de um jeito que Twitter, Facebook, Flicker e Youtube nunca permitirão
  • Blogs são o centro de sua personalidade digital: você pode participar de quantas redes quiser, mas é no blog que suas idéias mais relevantes estão reunidas e é ali onde você pode se expressar de forma mais ampla
  • Marketing e profissionais dominam os principais blogs, sim, mas quem procurar fora da lista dos 100 blogs mais acessados do Technorati vai encontrar vozes interessantes com mais facilidade do que crê Boutin

Engraçado é ver como um argumento para a resistência dos blogs são parecidos com os dados pelos jornais: informação analisada em profundidade. Bom, será que agora teremos palestras de jornalistas x blogueiros x twitteiros?!?!? Espero que não, e que todos usem todas as ferramentas ao mesmo tempo!

Monopólio travestido de concorrência

sexta-feira, 4 de julho de 2008 por Paulino Michelazzo

Qualquer brasileiro com dois neurônios bons e um manco tem certeza que o processo de privatização das companhias telefônicas (as famosas teles) em nosso país foi um dos maiores engodos políticos e comerciais que já vivemos. Pagamos via BNDES para empresas estrangeiras manipularem dados e voz em nosso território sem criar uma efetiva concorrência que oferecesse opções para os usuários. Mudaram os donos mas a fedentina continuou a mesma (só que mais rápida).

Exemplo disso apresentou-se esta semana em São Paulo. O estado com maior PIB do país simplesmente foi removido do planeta Internet por um defeito “complexo e raro” ocorrido na Telefonica de España, aquela que detém o monopólio das telecomunicações do estado. Sem escrúpulos e principalmente sem respeito, a empresa desconversa sobre o problema que amordaçou não somente os pequenos e desamparados usuários domésticos, mas também o mesmo governo que graciosamente ofereceu a concessão à eles. Para abafar o caso, estão fazendo o possível para restabelecer as conexões e delegacias de polícia, serviços públicos, escolas e até mesmo poderosos serviços de transações bancárias tiveram seu período de nostalgia reavivando canetas Bic e formulários xerocados. Nem mesmo em países comunistas tal prática é possível ser imaginada. Lá, ou se tem funcionando ou não se tem. Nada de meio termo.

A agência criada para passar a afagar as ditas teles diz que está investigando as causas. Conversa! Não existem detetives dentro da agência e muito menos interesse em investigar qualquer coisa. Para quê mexer com a segunda maior empregadora do país e uma das maiores pagadoras de impostos? Deixa para lá, só foram 48 horas mesmo. A Ingrid ficou seis anos no cativeiro. Porque os paulistas não podem ficar dois dias sem Orkut e YouTube?

O possível é pouco, muito pouco. O correto não é o possível. Correto seria a verdadeira concorrência como vista nos países corretos. A falta de outras companhias, a falta do compartilhamento de redes e principalmente a falta de respeito com o cidadão fazem de nosso sistema telefônico e de Internet uma das maiores piadas da América Latina. Até mesmo países como México e Chile já descobriram a fórmula para resolver a questão. A mesma caneta Bic usada pelas autarquias públicas nesta semana poderia ser usada para colocar cinco, dez, cinquenta companhias na mesma área criando uma briga de preços, qualidade, serviços e atendimento corretos para o cidadão e mostrar efetivamente quem sabe fazer. Mas como a Mont Blanc repousa no escaninho do ex-repórter global que não tem interesse em nada mudar, ficamos a mercê do raro e do complexo advindos do velho continente, mira?

Neste momento mudo o dito popular “quem não tem competência não se estabelece”. Na verdade, quem não tem concorrência não precisa de competência e se estabelece.

Móvel como ser humano

quarta-feira, 11 de junho de 2008 por Ana Amélia Erthal

As redes de comunicação sem fio estão difundidas no mundo mais rápidas que quaisquer outras tecnologias de comunicação registrada. A proposta de Manuel Castells, Mireia Fernández-Ardèvol, Jack Linchuan Qiu e Araba Sey em Mobile commnunication and society – a global perspective (The MIT Press, 2007, 331 páginas) é mostrar como o mundo reage ao contágio das novas tec¬nologias móveis e como populações de todo o mundo estão suscetíveis a adotar essas novas tecnologias.

O livro não é apenas mais uma promessa de pesquisa sem entrega de informações, definitivamente os autores não divagam filosoficamente sobre as questões de tecnologia móvel e as relações com a sociedade. Suas páginas estão preenchidas com as análises detalhadas de uma pesquisa cuidadosa, trazendo para o leitor da¬dos e estatísticas sobre a comunicação móvel, com tabelas, gráficos e comparações matemáticas realizadas com os dados levantados na pesquisa.

Logo no primeiro capítulo do livro temos um panorama geral do crescimen¬to da comunicação móvel em três níveis: globalmente, regionalmente e especificamente em alguns paises. Logo nas primeiras linhas é possível perceber a intenção dos autores em reforçar a imagem do telefone celular como uma convenção tecnológica. Eles mostram como em dez anos as tecnologias móveis deixaram de ser exclusividade de um grupo privilegiado e como houve uma inversão nos números das linhas ativas: em 2000 havia um celular para cada duas linhas fixas, em 2003, as linhas móveis haviam superavam as fixas.

Entre os números detalhados de difusão e assinaturas, há os de penetração. A Ásia lidera o ranking, com 41% das assinaturas; em seguida, vem a Europa, com 32%; as Américas, com 21%, a África, com 4% e a Oceania com 1%. Os japoneses são recordistas em muitas categorias, entre elas a internet móvel. Os fatores que explicam esse poder de utilização já foram demasiadamente discutidos (alto desenvolvimento das ciências nanotecnológicas e de entretenimento, produção local dos aparatos etc.) e o que o livro acrescenta são informações de cunho cultural, como a questão da miniaturização pela ausência de espaço físico, e a da estrondosa con¬quista da internet wireless, atribuída aos baixos níveis de penetração do computador pessoal. Inversamente, a alta penetração de internet via PC nos EUA, parece ser a razão pelo baixo interesse em telefonia e internet móvel.

No quesito difusão a Europa é líder porque desde o início das operações, definiu o uso padrão de GSM. Isso facilita o roaming internacional (graças a sua geografia); incrementa sua economia de escala e reduz os preços dos produtos comercializados. “A existência de padrões tecnológicos promove interconectividade entre telecomunicações e sistemas de informação e reduz as incertezas do mercado.

A operação de padrões incompatíveis, como TDMA, CDMA e GSM, é um dos fatores que reduz a porcentagem de adoção das tecnologias wireless nos EUA, ao contrário da Europa que usa apenas GSM e que possui um dos índices mais altos de penetração da tecnologia móvel.”

Até mesmo a viabilidade da utilização é explorada com profundidade. Para os autores o método de transporte predominante nos países também determina os usos dos recursos disponíveis nos aparelhos. Nos EUA, por exemplo, onde a maioria dirige seu próprio carro, certos tipos de comunicação móvel, como sms, são pouco viáveis. Em contraste, onde o transporte público é o principal meio de movi¬mentar-se, como na Ásia e na Europa, pessoas têm capacidade para usar tecnologia wireless on-the-go e por isso, desenvolvem expertise mais rapidamente.

Depois de entregar números de penetração, difusão e utilização, o livro apresenta dados sobre as diferenças sociais entre os usuários: idade, genêro, etnia e status sócio-econômico. Ele mostra, por exemplo, que a questão da idade – pesadelo para os marketeiros referenciarem suas campanhas publicitárias – é apenas um mito. Todas as idades usam, a diferença está em como usam. Os adultos usam mais o canal de voz. Os mais jovens usam mais os SMS, as short messages. Os mais velhos, que supostamente não estariam inclinados a usar a tecnologia móvel, começam a se servir do extenso pacote de serviços disponíveis pelas operadoras. É possível perceber uma crítica quase velada às barreiras que impedem as minorias étnicas.

Muitos outros questionamentos críticos são apontados pelos autores e esse é o segundo ponto mais forte do livro. Eles entregam dados de uma pesquisa exclusiva e mundial e tecem críticas a respeito dos efeitos desses números no dia-a-dia das sociedades. Tomando a comunicação como o centro de toda a atividade humana, em todas as esferas, os autores questionam sobre essa tecnologia que permite ao homem estar conectado de qualquer lugar do mundo, o tempo todo. Como isso impacta a vida social? Como a família é afetada com a possibilidade de controle de pais e filhos o tempo todo em contato? Como a escola se transforma para lidar com essas tecnologias e a alteração de comportamento dos alunos?

O que se pode ver é que as preocupações com e os efeitos do uso do telefone celular atravessam todas as fronteiras, independentemente de cultura, gênero, estrutura sócio-econômica ou qualquer outra categoria. O aparelho telefônico é muito mais que um aparato comunicacional. Ele expressa a identidade do usuário, ele representa a moda, ele aumenta a autonomia dos sujeitos, mas, os autores perguntam o quanto essa autonomia que transcende os usuários sobre o tempo e o espaço é real.
Assim como em seus outros livros (O poder da identidade e Sociedade em rede”, da editora Paz e Terra, e A Galáxia da Internet, da editora Jorge Zahar), Manuel Castells mantém sua conduta: ele entrega os dados, levanta muitos questionamentos críticos com a autoridade de especialista em internet e comunicação móvel, mas não arrisca palpites: deixa os leitores sem respostas para as perspectivas futuras da sociedade integralmente conectada. Concluindo sua obra, enfatiza que a tecnologia de comunicação móvel tem poder para tornar a lógica da redes de relacionamento ubíqua, para ele e os demais autores essa característica resume a experiência humana em nosso tempo.

Texto publicado na Revista Logos, edição 26, publicada pela Faculdade de Comunicação da Universidade Estadual do Rio de Janeiro