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Sintoma da internet é sintoma da cultura

quinta-feira, 31 de julho de 2008 por Ana Amélia Erthal

Essa semana publiquei no iMasters um artigo falando sobre o excesso de informação, um tema freqüente nas rodas de webwriting, ainda mais agora com o anúncio do “um trilhão de sites” pelo Google. O texto fala sobre como os usuários constroem, destroem e reconstroem o conteúdo, como ele é vivo e dinâmico e como o Twitter  representa esse movimento.Acontece que esse não é um sintoma só da internet. É um sintoma da cultura. Precisamos de tecnologias e sistemas que nos dêem mais tempo – o que é um paradoxo, e que vale para outro texto – e com isso estamos transformando os meios de comunicação.

Aprendemos a economizar as palavras para as mensagens SMS. Aprendemos a telefonar enquanto se faz alguma coisa (antes era o contrário: você fazia outra coisa enquanto telefonava). Até as piadas estão mais curtas, viraram chiste, instantâneas e sem enredo, mas muito engraçadas. Fique uma tarde no Twitter, siga algumas pessoas e você terá um repertório garantido por semanas. 

A dinâmica da comunicação permeia todos os setores e claro, passa pela escola. A maior questão da pedagogia hoje é o fim da “aula de salivação”, das aulas magistrais, em que o professor era o informante detentor do conhecimento. As crianças de hoje, impactadas por tantos recursos midiáticos áudio-táteis-visuais, não se atém a esse modelo de aprendizagem. É necessário que estejam engajadas com os conteúdos, que sejam motivadas pela descoberta. Erudição não é mais sinal de sabedoria, basta ver Kung Fu Panda (rs).

A pergunta que eu faço serve para os dois mundos: pra onde estamos indo? Se a informação é acessível e contestável para todos, talvez tenhamos um mundo mais colaborativo e menos competitivo. Talvez a medicina consiga, com a ajuda da tecnologia, fazer implantes cerebrais que processem um trilhão de informações em segundos (rs). As duas perspectivas são boas.

Ah, o amor!

quinta-feira, 12 de junho de 2008 por Ana Amélia Erthal

Já faz algum tempo que os amantes, para demonstrar devoção e amor eternos, marcavam as iniciais em troncos robustos de árvores públicas. As letras, em sua maioria, eram circundadas por corações atravessados pela seta balsâmica de Eros, o deus grego popularizado cupido, aquele que dá uma mãozinha pro destino e encontra alma gêmea em meio à multidão.

Enfim, os tempos mudaram, mas a idéia de gravar pra sempre no tronco da árvore permaneceu e agora veio pra web. Essa é a proposta do site www.arvoredoamor.com.br. Você vai até lá, escolhe um coração e o site garante que vai ficar publicado “para sempre”. Claro que o espaço deve ser comprado e há modelinhos de coração para todos os gostos (até mesmo os partidos) e os preços variam. Mas a mensagem e a foto vão ficar no caule e você não pode alterar nem fotos, nem mensagem: uma vez gravada, para sempre na árvore do amor.

É uma boa sugestão de presente para esse Dia dos Namorados, ao menos não vai murchar daqui a três dias, não vai acabar em três meses, nem puir daqui a um ano.

Móvel como ser humano

quarta-feira, 11 de junho de 2008 por Ana Amélia Erthal

As redes de comunicação sem fio estão difundidas no mundo mais rápidas que quaisquer outras tecnologias de comunicação registrada. A proposta de Manuel Castells, Mireia Fernández-Ardèvol, Jack Linchuan Qiu e Araba Sey em Mobile commnunication and society – a global perspective (The MIT Press, 2007, 331 páginas) é mostrar como o mundo reage ao contágio das novas tec¬nologias móveis e como populações de todo o mundo estão suscetíveis a adotar essas novas tecnologias.

O livro não é apenas mais uma promessa de pesquisa sem entrega de informações, definitivamente os autores não divagam filosoficamente sobre as questões de tecnologia móvel e as relações com a sociedade. Suas páginas estão preenchidas com as análises detalhadas de uma pesquisa cuidadosa, trazendo para o leitor da¬dos e estatísticas sobre a comunicação móvel, com tabelas, gráficos e comparações matemáticas realizadas com os dados levantados na pesquisa.

Logo no primeiro capítulo do livro temos um panorama geral do crescimen¬to da comunicação móvel em três níveis: globalmente, regionalmente e especificamente em alguns paises. Logo nas primeiras linhas é possível perceber a intenção dos autores em reforçar a imagem do telefone celular como uma convenção tecnológica. Eles mostram como em dez anos as tecnologias móveis deixaram de ser exclusividade de um grupo privilegiado e como houve uma inversão nos números das linhas ativas: em 2000 havia um celular para cada duas linhas fixas, em 2003, as linhas móveis haviam superavam as fixas.

Entre os números detalhados de difusão e assinaturas, há os de penetração. A Ásia lidera o ranking, com 41% das assinaturas; em seguida, vem a Europa, com 32%; as Américas, com 21%, a África, com 4% e a Oceania com 1%. Os japoneses são recordistas em muitas categorias, entre elas a internet móvel. Os fatores que explicam esse poder de utilização já foram demasiadamente discutidos (alto desenvolvimento das ciências nanotecnológicas e de entretenimento, produção local dos aparatos etc.) e o que o livro acrescenta são informações de cunho cultural, como a questão da miniaturização pela ausência de espaço físico, e a da estrondosa con¬quista da internet wireless, atribuída aos baixos níveis de penetração do computador pessoal. Inversamente, a alta penetração de internet via PC nos EUA, parece ser a razão pelo baixo interesse em telefonia e internet móvel.

No quesito difusão a Europa é líder porque desde o início das operações, definiu o uso padrão de GSM. Isso facilita o roaming internacional (graças a sua geografia); incrementa sua economia de escala e reduz os preços dos produtos comercializados. “A existência de padrões tecnológicos promove interconectividade entre telecomunicações e sistemas de informação e reduz as incertezas do mercado.

A operação de padrões incompatíveis, como TDMA, CDMA e GSM, é um dos fatores que reduz a porcentagem de adoção das tecnologias wireless nos EUA, ao contrário da Europa que usa apenas GSM e que possui um dos índices mais altos de penetração da tecnologia móvel.”

Até mesmo a viabilidade da utilização é explorada com profundidade. Para os autores o método de transporte predominante nos países também determina os usos dos recursos disponíveis nos aparelhos. Nos EUA, por exemplo, onde a maioria dirige seu próprio carro, certos tipos de comunicação móvel, como sms, são pouco viáveis. Em contraste, onde o transporte público é o principal meio de movi¬mentar-se, como na Ásia e na Europa, pessoas têm capacidade para usar tecnologia wireless on-the-go e por isso, desenvolvem expertise mais rapidamente.

Depois de entregar números de penetração, difusão e utilização, o livro apresenta dados sobre as diferenças sociais entre os usuários: idade, genêro, etnia e status sócio-econômico. Ele mostra, por exemplo, que a questão da idade – pesadelo para os marketeiros referenciarem suas campanhas publicitárias – é apenas um mito. Todas as idades usam, a diferença está em como usam. Os adultos usam mais o canal de voz. Os mais jovens usam mais os SMS, as short messages. Os mais velhos, que supostamente não estariam inclinados a usar a tecnologia móvel, começam a se servir do extenso pacote de serviços disponíveis pelas operadoras. É possível perceber uma crítica quase velada às barreiras que impedem as minorias étnicas.

Muitos outros questionamentos críticos são apontados pelos autores e esse é o segundo ponto mais forte do livro. Eles entregam dados de uma pesquisa exclusiva e mundial e tecem críticas a respeito dos efeitos desses números no dia-a-dia das sociedades. Tomando a comunicação como o centro de toda a atividade humana, em todas as esferas, os autores questionam sobre essa tecnologia que permite ao homem estar conectado de qualquer lugar do mundo, o tempo todo. Como isso impacta a vida social? Como a família é afetada com a possibilidade de controle de pais e filhos o tempo todo em contato? Como a escola se transforma para lidar com essas tecnologias e a alteração de comportamento dos alunos?

O que se pode ver é que as preocupações com e os efeitos do uso do telefone celular atravessam todas as fronteiras, independentemente de cultura, gênero, estrutura sócio-econômica ou qualquer outra categoria. O aparelho telefônico é muito mais que um aparato comunicacional. Ele expressa a identidade do usuário, ele representa a moda, ele aumenta a autonomia dos sujeitos, mas, os autores perguntam o quanto essa autonomia que transcende os usuários sobre o tempo e o espaço é real.
Assim como em seus outros livros (O poder da identidade e Sociedade em rede”, da editora Paz e Terra, e A Galáxia da Internet, da editora Jorge Zahar), Manuel Castells mantém sua conduta: ele entrega os dados, levanta muitos questionamentos críticos com a autoridade de especialista em internet e comunicação móvel, mas não arrisca palpites: deixa os leitores sem respostas para as perspectivas futuras da sociedade integralmente conectada. Concluindo sua obra, enfatiza que a tecnologia de comunicação móvel tem poder para tornar a lógica da redes de relacionamento ubíqua, para ele e os demais autores essa característica resume a experiência humana em nosso tempo.

Texto publicado na Revista Logos, edição 26, publicada pela Faculdade de Comunicação da Universidade Estadual do Rio de Janeiro